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  • Jorge Henrique Romero

Fluxo de inconsciência




Estão batendo na porta do vizinho. Há pessoas que chamam diretamente pelo nome, alongam a silaba tônica ou a última, mesmo que átona, depende da pressa e do humor de quem espera. Mas há alguém batendo na porta ao lado. Por mais concentrado que eu esteja na leitura, não posso deixar de tirar os olhos do livro e esperar que batam novamente. Foi o que aconteceu. Novas batidas e nada de chamarem pelo nome do vizinho, que nem mesmo eu sei qual é, sempre melhor assim. Bateram mais forte dessa vez. Pode ser somente entrega, o que é muito comum hoje em dia. Todos os dias à noite alguém com uma mochila pesada nas costas me impede de passar pra ir pra casa. Além disso, eles não têm respeito nenhum no transito. No caminho tinha um lá, estirado no chão, maior congestionamento. Eu nunca peço nada por aplicativos. Não tenho cartão de crédito. Acho que isso só funciona com cartão. Mesmo quando pagar as dívidas, não quero pedir cartão. É um roubo. Os juros são um roubo. O banco é um roubo. Tinham mesmo era que privatizar tudo. As coisas só melhoram assim. Estão batendo forte. Será que a pessoa não percebeu que não há ninguém em casa. Quantas vezes terão que bater? Tenho que voltar à leitura. É o melhor que eu posso fazer. E se não for entrega? Será a polícia? Geralmente eles gritam “é a polícia. Abra a porta!”. Mas isso acontece só nos filmes. Aqui no Brasil não tem isso e dependendo da cor do suspeito, todo mundo já sabe a história. Hoje em dia também tudo é racismo. Todo mundo hoje só sabe mesmo é se vitimizar. Será que o vizinho estaria metido com alguma coisa errada? Mas ele é até um moreno simpático. Continuam batendo e dessa vez de forma mais desesperada. Eu não posso sair para ver. E se for um bandido? Claro que um bandido não bateria na porta, talvez na Inglaterra, mas aqui no Brasil não pode ser. E se o vizinho estiver morto? Enfarto acontece o tempo todo. Semana passada encontraram um cadáver que já estava há uma semana trancado em casa. Aqui ainda não tem nada fedendo, só aquele frango que deixei pra descongelar. Por que não param de bater na porta? Por que eu não grito pra pararem? “Não estão vendo que não tem ninguém em casa, porra?”. Eu poderia gritar, mas e se viessem me interrogar? Eu certamente deixaria a porta trancada. Ontem uma briga de transito acabou em tragédia. As pessoas não respeitam mais umas às outras. Será que o vizinho é comunista? Eu vi que estão prendendo todos os comunistas. Mas também, esses sujeitos não amam ninguém, nem família, nem pátria, nem Deus. Deveriam prender mesmo esses sujeitinhos. Que estrondo foi esse? Será que entraram no apartamento dele? Por que ninguém ainda foi ver? Eu mesmo não vou. Isso não é da minha conta. Coisa que eu detesto é gente preocupada com a vida alheia. Eu vi uma pesquisa que mostra que a cada um minuto que você pensa na vida de outra pessoa, qual foi mesmo a universidade? Estava lá no celular. É tanta informação que... será que isso foi um tiro? Eu não sei diferenciar quando é tiro ou fogos de artifício, alguns são mais fáceis, mas... novamente. Será que o vizinho matou o entregador? Eu sabia que aquele sorriso escondia alguma coisa. Eu sempre desconfio de quem sorri com facilidade. Tem até uma frase latina que diz isso, mas eu não sei mais latim. Estudei essa matéria quando era muito novo. Bom mesmo era nesse período. Era o Brasil com B maiúscula. Nessa época tinha nada disso não. Só morria quem merecia. Trabalho tinha, aluno respeitava professor e filho respeitava pai. Hoje tá tudo de cabeça pra... Esse grito. Estão pedindo pra parar. Agora se eu estivesse armado seria diferente. Não teria vizinho criminoso nesse prédio. Eu até poderia ligar pra portaria, mas quem vai ficar no lugar do Paraíba? E se invadirem o prédio? Hoje acontece arrastão o tempo inteiro nessa cidade. Esse povo das favelas que não quer trabalhar. E agora esse silêncio. Será que levaram esse bandido? Tomara que prendam esse comunista. Não gosto desse povo. Melhor é voltar pra minha leitura. Esse livro de filosofia é tão bom. Mas ainda prefiro ver os vídeos. Puta cara engraçado! Se tivesse cartão pediria um Ifood.



Imagem: Surreal painting. Naked man with open door instead of face. Road in the field on a background. Square elements. Human elements were created with 3D software and are not from any actual human likenesses.


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