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  • Jorge Henrique Romero

Indiferença (capítulo do meu próximo livro: "Quanto dura a eternidade?")



(Imagem: Lars Henkel)



Indiferença

Antes do acidente que me deixou nesta condição desfavorável de narrador vegetativo, fiquei sabendo de meu pai, um tal de Pedro alguma coisa.

Pensei durante muito tempo que a única notícia que me chegaria aos ouvidos seria a derradeira, a notícia de sua morte. Nunca me sobressaltou seus infortúnios que minhas tias inadvertidamente me narravam. Eu ouvia desleixado elas contarem sobre sua vida miserável. E sempre diziam que ele perguntava por mim. Como ele é? O que faz? E que sentia remorsos. Eu cortava seco o assunto: depois de duas doses de aguardente qualquer um é capaz de remorsos. Elas sabiam bem que esta frase não precisaria de nenhum aperitivo.

Quanto medo eu tinha de seguir seus passos. Quanto medo minha mãe nutriu das semelhanças, usando-as como castigo verbal diante de meus ímpetos irrefreáveis. É igualzinho a seu pai, dizia ela sabendo que a comparação me era odiosa, sabendo do poder que o diminutivo tinha, “igualzinho”: marca sonora da leviandade e do medo.

Para Pedro alguma coisa, o Alzheimer foi mais que um presente, seria sua redenção. E quanta ironia não existiria em tudo isso. Logo ele que esquecera de tudo, trabalho, mulher, filho, e agora enterraria de vez essas lembranças tão incômodas, soterraria definitivamente os resquícios de seus gestos de indiferença pela vida.

Minhas tias cuidam de Pedro. Ele possivelmente não lembra o nome delas, não lembra se acabara de tomar café, talvez não lembre que um dia, após a saída da escola, fui escondido de minha mãe, entregar-lhe um presente do dia dos pais: uma caneca que comprei depois de passar um mês juntando o dinheiro que minha mãe me dava para comprar o lanche da escola. Quando cheguei em seu quarto, no fundo da casa de minhas tias, ele estava bêbado. Perguntou o que eu queria, o que fazia ali naquela hora, recebeu a caneca, mas como estava num estado terrível de embriaguez, ela escapou-lhe das mãos e estilhaçou-se no chão. A caneca tinha gravado um coração e a palavra “pai”. Mesmo que fosse possível juntar cada pedaço, sempre faltaria alguma letra, ou o pedaço de um coração. Foi a última vez que o encontrei. Mesmo a insistência de minhas tias não foi capaz de nos unir. Eu ainda tinha medo de encontrar algum caco embaixo de um cômodo esquecido.


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