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  • Jorge Henrique Romero

Jair Bolsonaro: culpa ou responsabilidade?


(Charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeitung, 27 de março de 2020 - Luff)



Philip K. Dick, o célebre escritor de clássicos de ficção científica como “Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas” (que deu origem ao aclamado “Blade Runner”), afirmou que “o instrumento básico para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se você pode controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que usam essas palavras”.

Palavras como “democracia”, “cidadão”, “pátria”, e outras muitas, possuem um grande acervo de imagens, referências e efeitos de sentido que foram sendo constantemente elaborados (ou “manipulados” para usar a expressão de K. Dick). Um exemplo dos efeitos de sentido que podem ser explorados ideologicamente é o uso político predatório da palavra “corrupção”.

Em 2015, o Instituto Datafolha realizou uma pesquisa de opinião para aferir quais seriam os principais problemas enfrentados no Brasil. O resultado da pesquisa demonstrou que, para 34% dos entrevistados, a corrupção seria o maior dentre todos os problemas, ficando na frente de preocupações como Saúde (16%); Desemprego (10%); Educação (8%); Violência/Segurança (8%) e Economia (5%). Nem a desigualdade social, nem o racismo, problemas estruturais da formação da sociedade brasileira, apareceram como problemas centrais.

A pesquisa é profundamente sintomática, pois em 2015 o processo de desconstrução do governo Dilma estava a todo vapor, resultando de ataques deliberados em diversos campos, sobretudo o discursivo. Foram reiterados e contundentes os bombardeios jornalísticos nos principais meios de comunicação. Alguns exemplos podem ser encontrados nas capas da revista Veja, Istoé e Época que exploraram os mais diversos efeitos semióticos e discursivos para elaborar narrativas que culminaram no processo de impeachment e esgarçamento do tecido social, beneficiando o espectro mais autoritário e obscurantista do prisma político brasileiro. Em nome de um Brasil limpo da corrupção, escondeu-se embaixo do tapete todo o montante de sujeira acumulada.

Este processo de desconstrução da imagem de Dilma Roussef, do PT e, sobretudo, de toda a esquerda, não pode ser compreendido sem a intervenção da Operação Lava Jato como um importante mecanismo de culpabilização política de determinados atores sociais e políticos. Desta forma, encontrar-se-ia o bode expiatório para a imolação e execração pública; agora a famigerada opinião pública (“manipulada” por aqueles mesmos meios de comunicação) encontraria legitimação para afirmar em alto e uníssono bom som: “A culpa é do PT”.

Aqui é fundamental estabelecer uma distinção entre “culpa” e “responsabilidade”. Distinção que poderia ser compreendida muito melhor na perspectiva psicanalista que vai de Freud a Lacan, a qual não me proponho enveredar. No entanto, é significativo o uso comum da palavra “culpa” e não “responsabilidade”. A primeira possui um peso ideológico punitivo e procura paralisar reflexivamente o interlocutor, enquanto a palavra “responsabilidade” teria efeito diverso, pulverizando o objeto das ações e convidando o interlocutor à reflexão, portanto, colocando em questão as causas e efeitos que levaram à criminalização dos responsáveis no processo.

A palavra “culpa” regressa (quando na verdade nunca saiu do cenário político) agora em tempos de pandemia global. O Brasil enfrenta um cenário desolador de mais de cem mil mortes por Covid-19. O presidente, que no início minimizou os impactos e a dimensão do Coronavírus, demonstrou uma posição radicalmente desfavorável ao isolamento social aconselhado pela Organização Mundial de Saúde, médicos e toda a comunidade científica internacional; acusou veículos de imprensa de disseminar pânico e discórdia entre as instituições e fez pública notoriamente propaganda de um remédio que não possui nenhuma comprovação de eficácia contra o Coronavírus. Sem falar que (desde a saída de Nelson Teich, em 15 de maio) estamos sem ministro da Saúde, cargo ocupado interinamente pelo general Eduardo Pazuello.

Ao bradar contra a imprensa, estaria a revolta e agressividade de Jair Bolsonaro expressando, mesmo que inconscientemente, sua culpa diante da inefável tragédia em que se transformou a pandemia no Brasil? Deixo a pergunta novamente para analistas e especialistas em psicanálise. Jair certamente não é coveiro, é presidente de um país que enfrenta a mais grave crise sanitária de sua história. “Gripezinha”, “quer que eu faça o quê?”, “e dai?” foram as expressões usadas por ele quando instado a falar sobre as mortes. Mas a pergunta possível é: Jair é culpado, ou responsável pelos mais de cem mil mortos?

Até o início do mês de agosto, o governo federal tinha gastado cerca de 54% de toda a verba destinada ao combate contra o Novo Coronavírus. A Universidade de Columbia (EUA) estima que globalmente foram gastos U$$ 7,2 trilhoes. São pacotes fiscais de emergência que injetam dinheiro nas economias nacionais, deixando de lado momentaneamente o tão procurado equilíbrio fiscal. Neste contexto, a América Latina apresenta gastos menores que a média global no combate a Covid-19 (2,4%), e o Brasil está em segundo lugar neste ranking liderado pelo Peru.

Muito da popularidade recente do governo Bolsonaro pode ser avaliado pela concessão do auxílio emergencial, rapidamente capturado como conquista e capital político de um governo que caminhava para o crescente enfraquecimento e declínio. Poderia a concessão deste benefício eclipsar, portanto, a tragédia que representa as cem mil mortes e conceder alívio político momentâneo ao frágil organismo bolsonarista?

Assim como qualquer organismo débil, o governo precisou fortalecer politicamente seu sistema imunológico. As saídas que via de regra são encontradas por Bolsonaro e seus asseclas são sempre o contra-ataque, a espetacularização e até mesmo o silêncio estratégico. Ferramentas que servem muito bem para manipular qualquer realidade, mesmo aquela que assiste desconsolada aos mais de cem mil mortos, como numa história de ficção científica, quando na verdade esta história não passa da mais triste e pura verdade.

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