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  • Jorge Henrique Romero

Livros, estes perigosos objetos voadores

O primeiro presente que minha filha ganhou, ainda antes de nascer, foi um livro que falava justamente sobre o amor por livros e como a vida seria cinza sem a presença deles, mesmo depois de catástrofes arrasadoras seria possível encontrar cores e esperança nestes fantásticos objetos voadores. A simplicidade e a beleza ganharam as telas e “Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore” venceu o Oscar de melhor curta de animação em 2012.

O livro foi um objeto raro em minha infância solitária. Mesmo assim, lembro do meu primeiro e único livro de poemas que fazia trocadilhos com as palavras “mar” e “amar”. Já na adolescência o interesse aumentou, e passei a consultar regularmente as bibliotecas públicas, tirando cópias de livros inteiros (quando a cópia de cada página custava apenas dois centavos).

Na universidade, as cópias continuaram sendo a forma de acesso aos livros, mas agora também seria possível encontrar sites que disponibilizavam downloads. As novas bibliotecas agora não precisariam muito de amplos espaços, mesmo assim, o fascínio pelos livros só aumentava e foi somente quando terminei o doutorado que percebi que não poderia viver sem a presença deles.

É conhecida a expressão do poeta Mário Quintana que nos diz que os livros não mudam o mundo, só as pessoas são capazes de transformá-lo. O que os livros podem mudar são única e tão somente as pessoas. Portanto, não é possível conceber mudança que não passe pela potência transformadora do livro.

Sua história se confunde com a nossa própria história. Sabemos que antes da escrita, os conhecimentos eram transmitidos entre gerações por meio da voz, da oralidade, da presença. De início, Platão foi refratário à escrita, perniciosa à memória ela não seria capaz de expressar as grandes questões filosóficas. Essa primeira observação sobre a escrita (por conseguinte sobre o livro) está presente no Phaidros e na Sétima Carta. Entretanto, a resistência à escrita foi vencida e o filósofo percebeu que o livro poderia vencer limitações impostas pelo próprio tempo e pela memória.

Em O nome da rosa, Umberto Eco, escritor e professor fascinado por livros (estima-se que sua biblioteca particular fosse composta por mais de 40 mil volumes), conta-nos sobre um livro proibido numa biblioteca de um mosteiro beneditino, no ano de 1327. Capaz de profundas transformações e, portanto, representando enorme perigo para as convenções instituídas sua leitura representava um ato de transgressão. Por esse motivo, todos os monges que folheavam suas páginas, acabavam morrendo envenenados.

O romance de Eco demonstra que a história do livro é também a história de sua interdição. Mulheres e distintos grupos sociais eram proibidos de ter acesso a determinados livros. A institucionalização desta interdição aconteceu em 1559, quando o Papa Paulo IV publicou o Index Librorum Prohibitorum¸ uma lista de livros considerados hereges, atentando contra os dogmas cristãos, e por esse motivo, foram proibidos pela Igreja Católica. Exemplos de obras proibidas foram as de Galilei Galilei e Giordano Bruno, ambos condenados pelo Tribunal da Santa Inquisição, que exigiu a retratação de Galileu por causa de seus escritos contra o modelo geocêntrico e condenou Giordano Bruno à fogueira por heresia, pois questionava os cânones do pensamento teológico, esgarçando a relação entre fé e ciência.

Somente em 1966, com o Papa Paulo VI, o index seria definitivamente abolido. As proibições, no entanto, não foram exclusivas às obras filosóficas (Maquiavel, Descartes, Pascal, Rousseau, Kant etc), muitos escritores tiveram seus nomes incluídos, como é o caso de Balzac, Sterne, Victor Hugo, Flaubert e Dumas. É curioso observar que no início havia restrições até mesmo às próprias Escrituras Sagradas. Sendo proibida a tradução e leitura da Bíblia em línguas vernáculas, ou seja, qualquer língua que não fosse o latim.

Os livros como ameaça estão presentes tanto na história, como também na ficção, e por vezes coincidem de forma assustadoramente preocupante. Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury descreve o que seria uma sociedade sem livros, na qual este objeto representaria extrema ameaça à conservação dos valores morais. Talvez esta tenha sido a mesma preocupação de Stalin ao pretender reescrever a história oficial da Revolução Russa, mesmo que para esse empreendimento fosse necessário perseguir e matar uma geração de intelectuais, como tão bem nos aponta Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo.

Os sistemas totalitários, como no romance de Bradbury, compreendem que os livros ameaçadores possuem destino certo: o fogo. Desta forma, bastava acreditar que queimar páginas de Marx, Freud, Kafka estariam também incinerando ideias. Mal sabiam eles que as ideias não se contentam somente com páginas e pulam de um leitor a outro, alimentando uma chama presente em cada momento da civilização.

Há inúmeros debates sobre a presença do livro no século XXI, sobre sua obsolescência e sobre o impacto das novas tecnologias que forçou revistas, jornais e outros meios a encontrar estratégias e soluções para as profundas transformações que, já em 1929, eram apontadas pelo filósofo Walter Benjamin ao afirmar que o livro, em sua forma tradicional, encaminhava-se para seu fim.

Num período marcado por radicais posições negacionistas, por fake News, pelo desacordo patente com organizações e comunidades científicas internacionais e retração dos investimentos em ciência, cultura e educação, é natural que nos questionemos sobre qualquer medida que possa dificultar o acesso a bens incompressíveis. O termo “incompressível” foi utilizado pelo professor e crítico literário Antonio Candido, em seu ensaio “”O direito à literatura”, ao defender o acesso a bens indispensáveis para a formação de valores humanos e valorização da arte e da fruição como aspecto fundamental desta formação. Desta forma, a luta pelos direitos humanos deveria também levar em consideração a importância da arte e o direito inalienável do acesso a bens culturais diversos e nas mais diversificadas modalidades de cultura.

Fazendo coro a Candido, podemos concluir que qualquer forma de negação e privação destes bens indispensáveis é uma forma de mutilação de nossa humanidade. Além disso, é uma das maneiras mais cruéis de alimentar os abismos sociais, os preconceitos, ignorância e desinformação. Lutar pela mais ampla democratização do acesso ao livro, é a luta por uma sociedade mais livre, capaz de voar tão alto quanto os livros do primeiro presente que minha filha ganhou.


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