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  • Jorge Henrique Romero

O culto (conto do livro "Estúrdio)





Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Machado de Assis, “A igreja do diabo”.

Deus é paciência. O contrário, é o diabo.

Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.

De todas as virtudes – se é que assim poderíamos nos referir a tal caso – que o diabo sempre invejou em Deus, a paciência é a sua eterna favorita.

Acumularam-se pilhas seculares de arquivos dos condenados; o departamento sempre fora um caos e mergulhara numa onda tranquila desde o surgimento das planilhas do Excel e da digitalização de todo o arquivo de infinitas gavetas.

Os novos bolsistas que haviam chegado – todos estatísticos que haviam passado no recente concurso, do qual o acidente de avião fora somente o pretexto para a nomeação imediata – organizaram os dados e criaram um sistema simples e de fácil acesso (o que não salvaria a pele do Sr. Gates que já era figura aguardada), que consistia num banco de dados contendo as informações dos condenados, a lista de pecados, além de uma classificação mais objetiva destes, atualizando, inclusive, o já obsoleto sistema de classificação contido no manual dos apóstolos. Há de se perdoar tal descaso, pois demoram séculos para a burocracia reinventar novas formas de solucionar os mesmos problemas, quem dirá os novos.

De todos os avanços que a modernização infernal trouxe, o melhor foi o mapa que os jovens e tenros estatísticos fizeram. Esse mapa ordenava de forma atualizada todos os pecados cometidos em tempo real; dessa forma, ficaria mais fácil a atuação nas chamadas “zonas frias”, ou seja, aquelas na qual peca-se pouco (não se sabe ainda se por virtude ou falta de oportunidades). O monitoramento dos pecadores poderia agora ser realizado de forma precisa, o que animou a todos, inclusive o diretor geral que resolveu promover os bolsistas e devorou os inúteis e imprestáveis funcionários antigos.

- É disso que precisamos: renovação! - Bradou o diabo com explicita satisfação. Contudo, chamou-lhe a atenção um pequeno ponto que estava completamente em branco no amplo mapa de pecados. Perguntou então aos novos promovidos o que significava aquele ponto, e obteve uma resposta que em nada lhe satisfez. Não sabiam que região era aquela, pois durante décadas nenhum relatório fora enviado para análise, posto que há muito não surgira nenhum pecado, mesmo os mais leves. O próprio chefe não conhecia aquela região, por esse motivo resolveu que não enviaria nenhum representante, e fora ele mesmo conhecer o tal lugar. Se quer algo bem feito, peça ao próprio diabo que o faça!

Quando resolveu visitar ele mesmo o lugar desconhecido, não sabia que o acesso fosse tão difícil. Possuíam uma extensa rede que dava acesso aos mais diversos pontos do planeta, mas tal região era inacessível. Teria que percorrer toda a distância a pé, pois o ponto mais próximo foi uma província de cem habitantes, no qual uma galinha fora roubada, o que acarretou uma punição severa para o ladrão. Coisa que fora muito estimulada pelo próprio chefe, que atiçou a ira da população contra o jovem que fora amarrado no meio da província e deixado sob o sol impiedoso de uma semana inteira. Deliciava-se o diabo com esses conceitos tão divertidos de justiça que as pessoas nutriam. É por isso que não perdia os linchamentos, e lembrava com tristeza e nostalgia os bons tempos das fogueiras santas, aquilo é que era espetáculo!

Depois de iniciada a longa caminhada, não mais encontrou pessoas para a sua diversão, o que transformou o percurso numa cansativa e entediante travessia. Depois de tantos dias deparou-se com um rio; na outra margem estaria o lugar misterioso. Compreendeu, de certa forma, porque os relatórios não chegaram, não era somente por pura incompetência, mas o lugar era realmente de difícil acesso até para ele, que estava acostumado a atravessar desertos e lugares inóspitos. Costumava dizer que onde houvesse uma alma casta, lá estaria ele para seduzir; no que podemos concluir que possuía um gosto acentuado pela sedução e pelos provérbios.

Preparou-se para atravessar o rio, quando um velho barqueiro se aproximou numa pequena canoa que possuía lugar somente para uma pessoa. O ancião, além de cego, possuía uma barba que o próprio diabo pensou que fosse mais antiga que ele próprio.

- Mas como iremos atravessar se há lugar somente para um infeliz?

O velho não respondeu. Dignou-se a entregar os remos na mão do diabo e sentou-se na margem do rio. Se não fosse cego, diríamos que se pusera a contemplar as águas diáfanas e a grande extensão fluvial que dava num horizonte que se misturava com o próprio rio, formando uma imagem única entre um céu límpido de fim de tarde e o rio que escurecia à medida que se afastava.

Pôs-se a remar até chegar à outra margem, onde outro ancião o aguardava. Assim como aquele que ficara do outro lado do rio, este outro também era cego e de barba igualmente milenar e indomável. O diabo suspeitou que estaria prestes a entrar num monastério ou num hospício. Quase rezou para que fosse um monastério, pois nunca conseguira negociar muito bem com os loucos e, além disso, adorava os monges, assim como todos os devotos e seguidores das mais disparatadas crenças. Achava-os muito divertidos com todas aquelas bobagens místicas e filosofiazinhas.

Acompanhou o ancião que o levou até uma construção simples de pau a pique, onde funcionava não somente o templo, mas a moradia de todos naquela pequena comunidade.

- Estávamos esperando o senhor. Sente-se e prove as frutas que colhemos esta manhã.

- Agradeço pela hospitalidade. Deve saber que normalmente não sou bem recebido nos templos; minha presença é vista como uma profanação. Falo “normalmente” porque tudo não passa de uma prestação de contas. Confesso até que é motivo de muita diversão observar algumas cerimônias na qual afirmam que estou presente; dissimulam minha voz como se eu fosse vocalista de heavy metal e, logo em seguida, expulsam minha presença do corpo do moribundo. Minha parte preferida é quando...

- O senhor deve estar... perdoe-me aliás a intromissão, mas é que o senhor veio até aqui com um objetivo. Podemos passar diretamente ao ponto, se acaso aprovar.

- Claro. Sem dúvida. Tenho muitas coisas para resolver. É claro que nos últimos tempos a terceirização nos ajudou muito. Todavia, há sempre muito trabalho. Vamos direto ao ponto. O que posso lhes oferecer?

- Gostaria de responder de forma muito simples e espero que não fique com raiva de nossa resposta. Mas o caso é que não há nada que possa nos oferecer.

- Sempre há, meu querido. Não falo em dinheiro, nem dos pecadilhos da carne. Pelo que estou vendo, estão curados desse tipo muito banal de pecado. Saiba que recebo muitas ofertas. Tenho muitos agentes que trabalham em muitos templos, aliás. Nos dias atuais é preciso transformar tudo numa experiência singular. Se quiserem melhorias na comunidade, por que não? Se quiserem posso até arranjar algumas entradas para o baile divino. Tenho ainda alguns ingressos. É sempre bom possuir bons relacionamentos com a high society. Mas nesse caso, nem todos podem ir ao baile, é escolher alguns para a expiação. Sempre foi assim, não é mesmo?

- Creio que o senhor não entendeu bem. Somos nós que temos uma proposta.

A situação era deliciosamente inusitada. Não era dado às surpresas, no entanto, parecia disposto a ouvir o que aqueles velhos cegos e barbados teriam a oferecer-lhe, logo ele que poderia ter tudo.

- Confesso que estou surpreso. A última vez que me fizeram uma proposta já faz um bom tempo. Cerca de dois mil anos atrás. Fale-me! Fiquei excitado, deliciosamente excitado.

- Pois afirmo que estais diante de uma grande oportunidade. Acredito que durante todo este tempo sentiste uma angústia devoradora.

- Por favor! A última coisa que preciso é de um analista.

- Não pretendo fazer nenhuma análise. Simplesmente um convite. Permaneça aqui o tempo que achar necessário. Podes tentar a qualquer um destes anciãos que moram aqui nesta pequena e humilde comunidade, se todos cederem aos vossos encantos, serás o senhor de nossos dias e noites.

- E se houver alguém disposto a não capitular diante de minhas tão generosas ofertas?

- Se houver alguém, um único velho que resista aos vossos encantos, então permanecerás aqui conosco e dobrará os joelhos como qualquer um de nós. Aceitas a proposta?

- A única cláusula em nosso contrato é: posso usar qualquer ferramenta para aliciar a qualquer um, inclusive vós, velho simpático e audacioso? Todos tomarão conhecimento de minhas tentativas? Se assim for, será tentativa malsã e perda de tempo.

- Ninguém conhecerá vossos intentos, sendo assim, poderás fazer livre uso de qualquer ferramenta. Mas saiba que se houver um único ancião livre de vossas tentações, ficarás conosco até que o último de nós dê seu último suspiro.

E assim foi. O diabo, que já estava enferrujado e que há muito não colocava as mãos na massa, habituando-se ao regime de terceirização e aos agentes que faziam todo o trabalho que outrora ele próprio executava, achou aquela uma boa oportunidade para sair do sedentarismo e relembrar as antigas artimanhas. No começo sentiu as dificuldades a que todos estão acostumados quando são privados dos velhos hábitos e se veem obrigados a revisitá-los. Passou a observar todos os anciãos, pescou seus hábitos; passou a ser o primeiro a levantar e o último a dormir. Trabalhou duro como todos, ajudou em todas as atividades e demonstrou ser o maior exemplo de devoção, humildade e resignação. No começo, os velhos monges demonstraram desconfiança diante daquele desconhecido; aos poucos romperam as distâncias, até que aceitaram com prazer sua presença.

A situação definitiva deu-se num culto dominical. O diabo, que no começo agia com pleno desprezo, passou a participar parcimonioso do ritual. Um dia fora convidado de forma inusitada a falar diante de todos e dar seu testemunho. Eis a oportunidade que tanto ansiava. Mal chegou ao púlpito, percebeu que uma estaca do templo balançou com a súbita ventania, prenunciando a tempestade que se aproximava. Foi então que se arremessou na frente de um ancião que seria atingido com a estaca pontiaguda. Diante de seu sacrifício, todos se puseram de joelhos e a rezar pelo santo estrangeiro que viera de tão longe para salvar a vida de um daqueles pobres homens. O mais velho dentre todos eles aproximou-se, era o mesmo que havia feito a proposta. Aproximou o ouvido da boca do diabo que cuspia sangue e vantagens:

- Meu velho, ninguém pode apostar a própria cabeça com o diabo. Deverias conhecer a regra de ouro! Agora levarei de volta comigo o peso de vossas almas. Não são tantas, vá lá! Mas a satisfação de vencer a aposta é maior.

O ancião esboçou um sorriso. O diabo conhecia bem aquela expressão. Como bom apostador que era, sabia que as cartas estavam marcadas e antes que fossem viradas sobre à mesa, temeu que a derrota chegasse a galope, ou que a queda fosse iminente.

- Mas estão me adorando e até vós ajoelhastes diante de meu sacrifício...

- Sim. Foi um belo gesto; seu sacrifício foi merecedor de toda a nossa devoção, e não somente esse gesto, mas todo o árduo trabalho, as noites dormidas sob chuva, as mãos que sangraram com a lida pesada. Seu sacrifício começou quando aceitou a proposta.

- Então... a aposta foi ganha. Sou vitorioso, pois...

- Porém... A aposta foi muito simples: se conseguisses dobrar os joelhos e a vontade de todos que moram na comunidade, poderia levar todas as nossas humildes e devotas almas.

Foi então que lembrou da única alma que saíra completamente imune de suas tentativas, a única que não conseguiria persuadir, não porque fosse um espirito forte e inquebrantável, mas simplesmente porque o único morador da comunidade que não dobrou os joelhos diante de seu sacrifício, estava do outro lado da margem. Agora entendera porque a canoa só cabia uma única pessoa.

- Mas isso não vale! Ele não estava...

- Meu caro, quando perguntaste se poderia usar todas as suas artimanhas, esqueceu de perguntar se eu poderia usar as minhas.

O diabo, que tanto gostava de brincar com almas e provérbios, aprendeu que não era o único conhecedor de artimanhas, e que nunca se deve apostar a própria cabeça, seja o adversário quem for. E foi assim que provou da eterna condição humana.

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